Rio amplia rastreamento de vício em apostas nas unidades de saúde
Nova estratégia inclui perguntas sobre bets nas consultas de rotina e já identificou 22 pacientes com sinais de comportamento problemático em apenas uma semana
A rede municipal de saúde do Rio de Janeiro passou a adotar, desde agosto, uma nova estratégia para identificar pessoas com problemas relacionados às apostas em plataformas de bets e oferecer atendimento também aos familiares afetados. A medida foi incorporada às consultas de rotina realizadas nas clínicas da família e nos centros municipais de saúde.
Assim como já ocorre em ações de rastreamento relacionadas à depressão e ao tabagismo, os profissionais passaram a fazer duas perguntas específicas sobre a relação do paciente com apostas durante os atendimentos. As respostas são registradas no prontuário eletrônico e, quando há indicação de comportamento de risco, a equipe pode iniciar o acompanhamento.
Em apenas uma semana de aplicação da estratégia, 3.070 pacientes responderam às perguntas. Desse total, 22 disseram sentir necessidade de realizar apostas, o equivalente a quase 1% dos entrevistados. Outros 15 relataram já ter mentido para familiares para esconder quanto haviam gasto com jogos.
A identificação precoce permite que os profissionais avaliem cada situação e definam o tipo de cuidado necessário. O tratamento pode começar com orientações nos casos considerados de menor risco e avançar para acompanhamento especializado com equipe multiprofissional e atenção psicossocial quando houver maior gravidade.
A estratégia também prevê o acolhimento de familiares que estejam sofrendo impactos relacionados às apostas, mesmo quando a própria pessoa que aposta ainda não esteja disposta a iniciar o acompanhamento.
Aumento da procura por ajuda motivou mudança
A decisão de ampliar o rastreamento para toda a Atenção Primária surgiu após profissionais identificarem um crescimento na procura por atendimento relacionado a problemas associados às apostas.
O tema já era acompanhado nos serviços de saúde mental, mas a Secretaria Municipal de Saúde identificou a necessidade de levar a abordagem para as clínicas da família e centros municipais de saúde, permitindo que situações de risco sejam reconhecidas antes mesmo de o paciente procurar ajuda especificamente por causa do jogo.
Um levantamento realizado pelo Núcleo de Inteligência Assistencial da SMS, com apoio de tecnologia de processamento de linguagem natural aplicada aos prontuários eletrônicos, encontrou 1.378 pessoas com registros de situações que poderiam estar relacionadas ao vício em apostas.
Entre os problemas identificados estavam relatos de ansiedade, insônia e depressão, além de dificuldades financeiras que atingiam o núcleo familiar.
Os dados também revelaram perfis diferentes entre os apostadores e os familiares afetados. Entre as pessoas que se identificaram como apostadoras e buscaram ajuda, aproximadamente 60% eram homens, com 567 registros. A idade mediana desse grupo era de 37 anos, e 53% tinham entre 18 e 39 anos.
Já entre os familiares afetados, 85% eram mulheres, totalizando 276 dos 325 registros analisados. A idade mediana era de 45 anos, com maior concentração entre pessoas acima dos 40 anos, incluindo principalmente esposas e mães de apostadores.
Casos envolvendo menores também chamam atenção
O levantamento identificou ainda 25 pacientes com menos de 18 anos relacionados a situações envolvendo apostas. Desse grupo, 22 eram meninos.
Embora menores de idade não possam participar legalmente de apostas, o dado chamou a atenção da Secretaria de Saúde diante da facilidade de acesso a aplicativos e plataformas digitais por meio de celulares.
A presença de adolescentes entre os casos reforça a preocupação com a exposição precoce às plataformas de apostas e com os impactos que esse comportamento pode provocar na saúde e na rotina familiar.
Profissionais da saúde também recebem capacitação
Além do rastreamento durante as consultas, a Prefeitura passou a capacitar agentes comunitários de saúde e outros profissionais das unidades para reconhecer sinais relacionados ao comportamento problemático com apostas.
A formação inclui treinamento específico disponibilizado pelo Ministério da Saúde e orientações para que as equipes possam identificar situações de risco, acolher pacientes e familiares e encaminhá-los para o nível de atendimento adequado.
Também serão distribuídos materiais informativos para orientar a população sobre os sinais de alerta e os caminhos disponíveis para buscar ajuda.
A Secretaria Municipal de Saúde considera que a nova abordagem muda a lógica de atendimento ao problema: em vez de esperar que a pessoa reconheça a dificuldade e procure espontaneamente um serviço, a rede passa a investigar o tema durante consultas de rotina e oferecer apoio quando houver indícios.
A iniciativa amplia o papel da Atenção Primária na identificação de situações relacionadas às apostas e busca reduzir os impactos que o comportamento pode provocar não apenas na saúde individual, mas também nas relações familiares e na situação financeira dos domicílios.


